Proibição de antibióticos na engorda animal acelera mudança de modelo na pecuária

04/05/2026 às 09:33 | Por: Panorama Goiás Comunicação

Nova regra do Mapa reforça tendência de sistemas mais sustentáveis e pressiona produtores a adotarem alternativas nutricionais (Divulgação/ @nutri.ganho)

A decisão do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) de proibir o uso de antibióticos como melhoradores de desempenho na alimentação animal marca um novo momento para a pecuária brasileira. A medida, que atinge a criação de bovinos, suínos e aves, busca conter o avanço da resistência antimicrobiana, um tema que  ganha espaço globalmente por impactos diretos na saúde humana.

Historicamente utilizados para acelerar o ganho de peso e reduzir a incidência de doenças nos rebanhos, esses aditivos passaram a ser questionados devido ao uso contínuo e preventivo. A preocupação central é que a exposição frequente a antibióticos, mesmo em baixas doses, contribua para o surgimento de bactérias resistentes, reduzindo a eficácia de tratamentos médicos.

Com a nova regulamentação, substâncias consideradas críticas para a medicina, como avoparcina, bacitracina e virginiamicina, deixam de ser permitidas nesse tipo de aplicação. O governo estabeleceu um período de transição de 180 dias para retirada gradual dos produtos do mercado.

Para especialistas, a decisão acelera uma transformação que já vinha sendo discutida dentro do setor. Para o zootecnista e gestor comercial da Nutriganho, Fernando Carlos, o movimento reforça a necessidade de revisão de práticas produtivas. "O uso contínuo de antibióticos como ferramenta de desempenho já vinha sendo questionado há algum tempo. Agora, com a regulamentação, isso deixa de ser uma opção e passa a exigir uma mudança estrutural na forma de produzir", afirma.

De acordo com ele, parte do setor já vinha se antecipando a esse cenário, investindo em alternativas nutricionais que não envolvem antibióticos. "Existem tecnologias que permitem manter desempenho sem recorrer a esses ativos, como o uso de óleos essenciais e taninos. São estratégias que atuam no equilíbrio ruminal e na saúde do animal de forma mais sustentável", explica.

Fernando destaca que iniciativas nesse sentido não são recentes em alguns sistemas produtivos. "Há mais de duas décadas, já existem operações que optaram por não utilizar esses aditivos, focando em nutrição mais eficiente e manejo. Esse movimento agora tende a se ampliar com a nova regra", diz.

Além da questão sanitária, a mudança também dialoga com exigências de mercado, especialmente no comércio internacional, onde cresce a demanda por produtos de origem animal associados a práticas mais responsáveis.

A expectativa é que, com a restrição, haja maior disseminação de tecnologias nutricionais alternativas e avanço na profissionalização da pecuária. "O setor passa por uma evolução. A produtividade continua sendo importante, mas cada vez mais associada à qualidade, à segurança alimentar e à sustentabilidade", completa Fernando.